Na sequência da exposição O CÉU ESTÁ DIVIDIDO, que esteve patente em abril de 2026, conversámos com a artista Mariana Clemente (Porto, 1994), conhecida artisticamente como Quase Cachi.
A sua prática centra-se na ilustração e na instalação, desenvolvendo narrativas visuais que cruzam memória, identidade e experiência intercultural. Após uma formação inicial em Comércio Internacional, dedicou-se integralmente às artes visuais em 2019, aprofundando a sua prática no IPCA e na FBAUP.
Como surgiu o teu nome artístico, Quase Cachi?
Antes de me dedicar ao desenho, comecei por compor música, o que me levou naturalmente à necessidade de acompanhar essas composições com imagens. “Cachi” deriva de caxixi, uma maraca que utilizava nas gravações e pela qual tinha uma ligação forte.
Ao mesmo tempo que este processo criativo surgia, adotei o meu cão, que recebeu esse nome e acabou por influenciar o início do meu trabalho. Atualmente, faz parte do logótipo, que vai mudando conforme os acessórios e o tema de cada exposição, por exemplo, nesta que está patente na UMA galeria, era uma assistente de bordo.
O “Quase Cachi” surge dessa relação contínua: o meu percurso artístico desenvolve-se em paralelo com a presença do meu cão. Costumo referir, de forma leve, que fomos adquirindo hábitos semelhantes ao longo destes dez anos.
Podes falar-nos sobre o teu processo de trabalho?
A minha prática parte das pessoas com quem convivo e das histórias que vou acumulando ao longo dos lugares por onde passo, em diálogo com o que acontece no mundo. Cada desenho começa com uma ideia geral, ainda sem grande definição, e vai sendo desenvolvido ao longo do tempo, à medida que acrescento pormenores que surgem, seja através das notícias, de uma caminhada ou de referências visuais como o cinema.
Os contextos onde vivi durante mais tempo, como o Porto, Dundalk e Sapporo, têm uma influência direta no meu trabalho. Temas como a relação entre cidade e campo, a presença da tecnologia, a experiência de viver entre países e o avião, sempre à espreita para me levar para um lugar de memórias, aparecem recorrentemente nas minhas ilustrações. Alguns elementos funcionam como símbolos dentro desse universo: os corvos que choram remetem para a nostalgia, os patos para a liberdade e os carros vermelhos para uma vivência mais acelerada e automatizada.
Como nasceu a exposição O CÉU ESTÁ DIVIDIDO, apresentada na UMA galeria? De que forma o tema, as diferentes classes sociais num espaço fechado como um transporte aéreo, se cruza com o teu medo de voar?
O tema surge, em primeiro lugar, da minha relação ambígua com os aviões. Quando estou mais desanimada, tenho tendência para ver dois tipos de vídeos: de aviões e de tubarões. É curioso, porque tenho medo de ambos, mas, de alguma forma, consolam-me.
Num segundo momento, comecei a observar com mais atenção o funcionamento dos aeroportos e a forma como as diferenças sociais se manifestam nesses espaços. Enquanto aguardava para ser revistada, reparei na existência de zonas destinadas a classes mais elevadas, quer para evitar filas, quer para esperar pelo embarque, e essa separação prolonga-se para dentro do próprio avião, tornando-se particularmente evidente em voos de longa duração.
Por fim, durante um voo para o Japão, marcado por forte turbulência, o medo tornou-se uma linguagem universal. A pessoa sentada ao meu lado não falava a mesma língua que eu, mas, ainda assim, conseguimos comunicar através dessa sensação comum. Nesse momento, o avião revelou-se, para mim, um espaço simbólico da condição humana: apesar de partilharmos a mesma essência, continuamos a construir barreiras que nos separam.
De que forma as residências artísticas no Japão e na Irlanda influenciaram o teu trabalho?
A Irlanda teve um papel determinante nas minhas ilustrações. Cheguei durante o período da Covid e, como não podia sair da cidade, concentrei-me totalmente na minha prática num estúdio de técnicas de impressão, a Creative Spark. Fui recebida e integrada, pela Gráinne Murphy na cultura e na vida irlandesa, o que levou os meus desenhos a refletirem essa realidade.
Antes dessa mudança, trabalhava sobretudo com tons cinzentos, porque era assim que percecionava a vida no Porto. A Irlanda introduziu a cor no meu trabalho, que se tornou uma das suas características centrais. Ainda assim, acabei por encontrar um equilíbrio: percebi que a presença do passado e da nostalgia era essencial, e por isso continuo a integrar os tons de cinza.
O Japão trouxe uma dimensão mais ligada à fantasia. Viver noutro contexto cultural, de forma imersiva, implica um certo distanciamento da vida anterior e uma redefinição pessoal. Esta experiência levou-me a sair da minha zona de conforto e a experimentar novos materiais e formas de apresentação. Foi também no Japão que conheci o meu coletivo, com o qual regressei no ano seguinte para duas residências que contribuíram para integrar uma dimensão mais social no meu trabalho. Nesses contextos, fora dos grandes centros urbanos, o trabalho coletivo e a comunidade assumiam um papel central, o que me levou a um olhar mais atento sobre as pessoas que me rodeiam e as suas histórias.
Nesta exposição na UMA galeria, exploras diferentes meios e suportes — da pintura acrílica com canetas de acrílico ao bordado, passando pela instalação, vídeo e som. Gostas de trabalhar várias linguagens em simultâneo? Tens algum meio de eleição? Há algum que ainda gostasses de experimentar e não tiveste oportunidade?
O desenho é fundamental para mim, por isso os marcadores e as canetas de ponta fina serão sempre a minha zona de conforto. Ao mesmo tempo, é também o meio onde sinto uma maior exigência de perfeição, o que por vezes pode tornar o processo mais frustrante.
Para contrariar isso, procuro intercalar com a exploração de outras técnicas que, embora partam de bases diferentes, pertencem ao mesmo universo visual.
Existe também uma vontade forte de criar um ambiente onde o público possa, de alguma forma, escapar à realidade. Quanto mais consigo construir esse universo em torno do tema, mais completo sinto o resultado final.
No futuro, gostava de experimentar outros meios, como a escultura em metal e madeira.
Se o público saísse desta exposição com uma ideia ou sensação, qual gostarias que fosse?
O meu objetivo com esta exposição é dramatizar e exagerar comportamentos, sobretudo de classes que não frequento e que, por isso mesmo, me parecem mais distantes ou irreais. Procuro criar um espaço de divertimento e escape através do riso.
O ser humano é, para mim, profundamente caricato, e interessa-me observar as suas ações e contradições, colocando-as em diálogo com aquilo que vivemos no dia a dia. Nesse sentido, gosto que o público também se coloque no lugar das minhas personagens.
No final, gostava que saíssem a refletir sobre alguns dos temas abordados, como o corte dos sobreiros, o excesso de trabalho alimentado pela ilusão de uma ascensão extrema, ou a crise da habitação, entre outros.



UMA Dialogues with Quase Cachi
Following the exhibition O CÉU ESTÁ DIVIDIDO (THE SKY IS DIVIDED), that was on view at UMA galeria on April of 2026, we spoke with artist Mariana Clemente (Porto, 1994), known artistically as Quase Cachi.
Her practice focuses on illustration and installation, developing visual narratives that intersect memory, identity, and intercultural experience. After initially studying International Trade, she devoted herself entirely to the visual arts in 2019, furthering her practice at IPCA and FBAUP.
How did you come up with your artistic name, Quase Cachi?
Before I turned to drawing, I started by composing music, which naturally led me to feel the need to accompany those compositions with images. “Cachi” comes from “caxixi,” a maraca I used in my recordings and to which I felt a strong connection.
At the same time this creative process was emerging, I adopted my dog, who was given that name and ended up influencing the beginning of my work. Currently, he is part of the logo, which changes according to the accessories and theme of each exhibition; for example, in this one on display at UMA gallery, he was a flight attendant.
“Quase Cachi” emerges from this ongoing relationship: my artistic journey develops in parallel with my dog’s presence. I often joke that we’ve developed similar habits over the past ten years.
Can you tell us about your creative process?
My practice stems from the people I interact with and the stories I accumulate as I move through different places, in dialogue with what is happening in the world. Each drawing begins with a general idea, still somewhat undefined, and develops over time as I add details that emerge—whether through the news, a walk, or visual references like cinema.
The places where I’ve lived the longest, like Porto, Dundalk, and Sapporo, have a direct influence on my work. Themes such as the relationship between city and countryside, the presence of technology, the experience of living across countries, and the airplane, always lurking to take me to a place of memories, recur frequently in my illustrations.
Certain elements function as symbols within this universe: crows crying evoke nostalgia, ducks represent freedom, and red cars symbolize a faster-paced, automated way of life.
How did the exhibition O CÉU ESTÁ DIVIDIDO (THE SKY IS DIVIDED), presented at UMA galeria, come about? How does the theme—different social classes in a confined space like an airplane—intersect with your fear of flying?
The theme arises, first and foremost, from my ambiguous relationship with airplanes. When I’m feeling down, I tend to watch two types of videos: ones of airplanes and ones of sharks. It’s curious, because I’m afraid of both, but somehow they comfort me.
Later on, I began to observe more closely how airports operate and the way social differences manifest themselves in those spaces. While waiting to be screened, I noticed the existence of areas designated for higher-class passengers, whether to avoid lines or to wait for boarding, and this separation extends into the plane itself, becoming particularly evident on long-haul flights.
Finally, during a flight to Japan marked by severe turbulence, fear became a universal language. The person sitting next to me didn’t speak the same language as I did, but even so, we managed to communicate through that shared sensation. At that moment, the plane revealed itself to me as a symbolic space of the human condition: even though we share the same essence, we continue to build barriers that separate us.
How have your artist residencies in Japan and Ireland influenced your work?
Ireland played a decisive role in my illustrations. I arrived during the Covid period, and since I couldn’t leave the city, I focused entirely on my practice at a printmaking studio, Creative Spark. Gráinne Murphy welcomed me and helped me integrate into Irish culture and life, which led my drawings to reflect that reality.
Before that move, I worked mainly with shades of gray, because that was how I perceived life in Porto. Ireland introduced color into my work, which became one of its central characteristics. Still, I eventually found a balance: I realized that the presence of the past and nostalgia was essential, and so I continue to incorporate shades of gray.
Japan introduced a dimension more closely tied to fantasy. Living immersively in a different cultural context involves a certain detachment from one’s previous life and a personal redefinition. This experience led me to step outside my comfort zone and experiment with new materials and forms of presentation. It was also in Japan that I met my collective, with whom I returned the following year for two residencies that helped integrate a more social dimension into my work. In those contexts, outside major urban centers, collective work and community played a central role, which led me to take a closer look at the people around me and their stories.
In this exhibition at UMA gallery, you explore different media and formats, from acrylic painting with acrylic pens to embroidery, as well as installation, video, and sound. Do you enjoy working with multiple mediums at the same time? Do you have a preferred medium? Is there one you’d still like to try but haven’t had the chance to yet?
Drawing is fundamental to me, so markers and fine-tip pens will always be my comfort zone. At the same time, it’s also the medium where I feel the greatest pressure to achieve perfection, which can sometimes make the process more frustrating.
To counteract this, I try to alternate with exploring other techniques that, although they start from different foundations, belong to the same visual universe.
There is also a strong desire to create an environment where the audience can, in some way, escape reality. The more I am able to build that universe around the theme, the more complete the final result feels.
In the future, I would like to experiment with other mediums, such as metal and wood sculpture.
If the audience were to leave this exhibition with one idea or feeling, what would you like it to be?
My goal with this exhibition is to dramatize and exaggerate behaviors, especially those of social classes I don’t frequent and which, for that very reason, seem more distant or unreal to me. I seek to create a space for fun and escape through laughter.
To me, human beings are profoundly caricatured, and I’m interested in observing their actions and contradictions, placing them in dialogue with what we experience in our daily lives. In that sense, I like for the audience to also put themselves in my characters’ shoes.
In the end, I’d like them to leave reflecting on some of the themes addressed, such as the cutting down of cork oak trees, overwork fueled by the illusion of extreme upward mobility, or the housing crisis, among others.
